segunda-feira, setembro 06, 2004

Compagnon - resenha

EXCESSOS DA TEORIA LITERÁRIA
Resenha do livro : Antoine COMPAGNON. Le démon de la théorie. Littérature etsens commun. Éditions du Seuil (La couleur des idées), 1998.Autor : Thomas LEPELTIER
(13 de setembro de 1998)Fonte : http://assoc.wanadoo.fr/revue.de.livres/cr/compagnon.htmlAcessado: 05 de setembro de 2004.
(Tradução para fins didáticos de Adail Sobral – 05 de setembro de 2004)

Como se deve abordar um texto literário? Deve-se por exemplo procurar informações sobre o autor ou o contexto histórico e cultural em que o texto foi escrito? O que é mais importante, o estilo ou o conteúdo? Haverá uma leitura objetiva, ou tudo depende da subjetividade do leitor? Para essas perguntas, entre outras, a teoria literária reivindicou oferecer respostas inovadoras. Essa disciplina, que alcançou seu auge na França nos anos 1960,principalmente com Roland BARTHES (1915-1980), estava na vanguarda dos estudos literários no mundo e sua ambição era fundar uma ciência da literatura. Animada por um real espírito combativo, a teoria literária pretendia revolucionar os estudos acadêmicos e devolver a literatura ao centro das preocupações sociais. Ela denunciou continuamente um determinadonúmero de idéias geralmente aceitas: já não era possível, por exemplo, acreditar que a intenção do autor determinava a significação de um texto, que a literatura fala do mundo ou que sua essência é o estilo... Eranecessário acabar com esses “fatos falsos” aceitos com demasiada facilidadepelo sentido comum.Mais de vinte anos depois, tem-se de admitir que a teoria literária não conseguiu atingir seu alvo. Parece que o senso comum, tão depreciado, resistiu a todos os ataques: as intenções do autor despertam ainda nosso interesse; sentimos ainda que a literatura remete ao mundo e ainda somos sensíveis a seu estilo... É conseqüentemente hora de avaliar a situação. Ao tomar como foco, neste livro, sete noções que estão no âmago dessas controvérsias literárias — a literariedade, o autor, o mundo, o leitor, oestilo, a história e o valor — e tentando traçar sua genealogia, AntoineCOMPAGNON oferece essa avaliação. Mostra assim que o fracasso da teoria literária vem de seu hábito de levar a extremos absurdos críticas que poderiam, se assim não fosse, se justificar. Logo, melhor que se deixar apanhar em oposições radicais, Antoine Compagnon opta por uma posição intermediária entre a teoria literária e a (antiga) aproximação acadêmica.Três exemplos — o autor, o mundo e o estilo — em que a oposição entre as duas abordagens é bem definida, vai nos permitir compreender os meandros dessa controvérsia.
O autor
Para compreender o significado de um texto, o senso comum nos leva adeterminar a intenção do autor (o que o autor queria dizer). Assim,voltamo-nos para aspectos de sua biografia para identificar vestígios dessa intenção. A teoria literária nega a relevância de tal investigação na descrição do sentido de um texto. Na verdade, as intenções da pessoa que compôs um texto nunca esclarecem inteiramente sua significação. Mais do que isso, a significação escapa a ela quando o texto, apartado de sua época de seu ambiente cultural, adquire sentidos que o autor não tinha previsto. O texto literário deve conseqüentemente ser visto como autônomo, e não como a expressão da intenção do autor. Antoine Compagnon reconhece a discrepância entre o que o autor queria dizer e o que seu texto significa (nunca se diz exatamente que se quer dizer).Ainda em sua opinião, não é tão fácil de livrar-se da noção de intenção. Por exemplo, quando nos vemos diante dificuldades devido à obscuridade ou à ambigüidade de um texto, é difícil evitar procurar uma passagem paralela do mesmo autor a fim de esclarecer o sentido do texto em questão. Isso supõe que as diferentes passagens têm em comum alguma coerência (o mesmo espírito,o mesmo tom), e que a coerência implica a intenção. Assim, um defensor coerente da teoria literária, convencido da idéia que um texto deve ser estudado sem referência à intenção, deveria evitar comparar passagens diferentes. Mas todos o fazem... E, de fato, presumir que nenhuma intençãoesteja na base composição de um texto significaria considerá-la o resultado de um processo aleatório, como o decorrente da ação de um macaco digitando num teclado de computador . O erro da teoria literária parece ter consistido em confundir o sentido deum texto e sua significação. O sentido é o que permanece estável na recepçãode um texto. A significação indica o que muda. O sentido é original e singular. A significação é o resultado da ligação que estabelecemos entre o sentido e nossa própria experiência (histórica, cultural, individual): é plural, variável e aberto. Assim, quando negou a objetividade do texto ao anunciar que sua significação varia de acordo com a época e o ambiente, ateoria literária esqueceu-se de que o sentido continuava fiel a si mesmo. Se assim não fosse, como seria possível falar da interpretação errônea de um texto? Uma obra pode ser inexaurível, e cada época pode compreendê-la à sua própria maneira, mas isso não significa necessariamente que ela não tem um sentido original. O que é inexaurível é sua significação. Assim a distinção entre o sentido e a significação torna possível esclarecer leituras diferentes de um texto sem eliminar as intenções do autor como um critério da interpretação. Isto não significa que a intenção do autor seja premeditada de modo completamente consciente. A intenção é global: não implica a consciência de todos os detalhes do processo da escrita. Assim como, quando se da uma caminhada, há uma intenção de andar, embora não se premedite conscientementeo movimento de cada músculo, assim também a intenção não pode ser reduzida ao que o autor resolveu escrever. A significação não se encontra no projeto explícito, que não passa de indício. O autor e sua biografia não explicam aobra. Mas o pressuposto de uma intenção permanece ainda assim base de toda interpretação.
O mundo
Em oposição à idéia de que a literatura remete ao mundo (como na mimesis deAristóteles), a teoria literária defendeu a idéia de sua autonomia com relação à realidade. Passou-se a supor que a literatura não mais representava coisa alguma, falava apenas de si mesma; tinha-se tornado auto-referencial: já não havia necessidade de procurar os modelos da Duchesse de Guermantes de Proust. Não mais se lia para descobrir a realidadedas coisas, mas em função das referências que a literatura fazia a si mesma.Essa concepção foi inspirado na teoria de Saussure, segundo a qual a significação dos signos lingüísticos é diferencial (resultado de suasrelações recíprocas) e não referencial (os signos não se referem às coisas). Aplicado à literatura, isso tornou toda referência à realidade, toda semântica, secundária com respeito à sintaxe e à estrutura da narrativa. Conseqüentemente, estudava-se como o que parecia referir-se à realidade estava na verdade determinado por códigos literários, não sendo senão os“effets de réel” que criavam a ilusão de dar acesso à realidade. Por exemplo, de acordo com a teoria literária, um detalhe (frequentemente um objeto) mencionado em uma descrição mas não importante para a história, era um signo convencional e arbitrário que indicava simplesmente ao leitor que a descrição em questão era realista: o detalhe (o objeto descrito) não denotava um objeto real, tendo antes uma conotação de realismo, um “effet deréel”. Como a denúncia da opressão essa parte do espírito de época, a teoria literária chegava a afirmar que essa conotação veiculava uma ideologia burguesa repressiva. Antoine Compagnon concede que um significante não dá acesso direto e transparente a um referente, que um romance não descreve a realidade como ela é. Mas isso não significa, afirma ele, que língua não seja referencial, ou que a literatura nunca descreve o mundo. E, de fato, como pode a teoria literária simultaneamente negar que a língua tem alguma relação referencial com realidade e usa esta mesma língua para determinar suas propriedades reais? Fazê-lo é reconhecer que é possível usar a língua para referir-se a algo que realmente existe, como a própria língua ou a literatura. O paradoxo é conseqüentemente que a função referencial da língua tenha de ser usada para negar sua própria existência!O erro da teoria literária foi ter passado da idéia da arbitrariedade do signo à arbitrariedade da língua. Ela concluiu disso que a língua era um sistema independente da realidade que, com sua estrutura e suas palavras, descrevia essa realidade de maneira arbitrária e constituía assim uma visão do mundo de que seus falantes permaneceriam prisioneiros. Entretanto, não é,por exemplo, porque descrevem as cores do arco-íris diferentemente que diferentes línguas não descrevem o mesmo arco-íris. Seja como for, é usando a língua que se pode observar que aqueles que falam outra língua descrevem a realidade de uma maneira diferente. Para isso, deve ser possível concordar com relação aos objetos que são descritos; a língua tem de falar sobre a realidade. Não se pode, conseqüentemente, concluir que o fato de a literatura falar sobre a literatura faz que ela não fale sobre o mundo.
O estilo
Outro tema de discórdia é a noção de estilo. Tendo eliminado a intenção e a representação, a Teoria Literária anunciou a morte da estilística. A ciênciada linguagem tinha de ir além do estilo, um conceito “pré-teórico”. A idéia do estilo se apoiava na possibilidade de sinonímia, que permitia dizer a mesma coisa de maneiras diferentes, isto é, com diferentes estilos. Tratava-se do conceito de uma dualidade entre o conteúdo e a forma, entre a substância e a expressão ou entre a matéria e a maneira, oposições bináriasque se apoiavam no dualismo entre pensamento e linguagem. A teoria literária julgou obsoletas todas essas polaridades. O pressuposto que estava na baseda estilística apoiava-se num círculo vicioso: para isolar o conteúdo (a substância), era necessário analisar a expressão (a forma), mas para analisar a expressão era necessário já ter determinado o conteúdo. Não erapossível interpretar a matéria sem descrever a maneira, ou descrever amaneira sem interpretar a matéria. Uma descrição estilística deve conseqüentemente ser vista, ao mesmo tempo, como interpretação semântica:analisar o estilo de um poema é determinar seu significado. A teoria literária considerou conseqüentemente que falar de uma maneira diferente era dizer algo diferente, que duas expressões nunca significavam exatamente a mesma coisa. A sinonímia era assim uma ilusão e a estilística deveria ser abandonada. Tem-se não obstante de admitir que o estilo ainda é discutido e que esta noção deve corresponder a algo, dado que é possível limitar um autor por seu estilo. Mas como reconhecer o estilo quando se sustenta que dizer algo de maneira diferente deve diferentemente dizer outracoisa? Para Antoine Compagnon, isso é possível se se admitir que exigir que haja sinonímia é pedir demais. Para o estilo existir, tudo o que é necessário é haver seja maneiras diferentes de dizer coisas bem semelhantes, nas não perfeitamente idênticas. Assim, pode-se dizer mais ou menos a mesma coisa com estilos muito diferentes. Abandonar a sinonímia estrita não abole, conseqüentemente, o estilo. Mais uma vez, Antoine Compagnon opta por uma conciliação entre o estilo como a essência da literatura e o estilo como uma ilusão. Para completar a apresentação desse estimulante livro, seria necessário discorrer sobre os debates sobre o que torna literário um texto, sobre o lugar do leitor, o relacionamento entre a literatura e a história e o valorde textos literários. Apresentando em detalhe as polemicas que cada uma dessas questões inspirou, Antoine Compagnon mostra que uma concepção excessivamente sistemática da literatura não pode escapar à contradição. A pergunta que os estudiosos da literatura não cessam de fazer — e que naturalmente é: o que é literatura — permanece assim não respondida. E por isso esse livro, ao fazer uma clara apresentação dos meandros dos debates literários, é também uma elegante lição da modéstia que a teoria requer...

2 comentários:

Yonarah disse...

Nossa vc escreveu uma resenha muito bem desenvolvida sobre esse livro, me ajudou muito a entendê-lo muito obg, seu trabalho ficou ótimo :D

Yonarah disse...

Nossa vc escreveu uma resenha muito bem desenvolvida sobre esse livro, me ajudou muito a entendê-lo muito obg, seu trabalho ficou ótimo :D